Far far away…

Nesta semana em que um frei foi advertido por celebrar uma casamento com noivos vestidos ‘a la Shrek’, o desenho animado acabou caindo em um dos meus embates reflexivos em relação à fé. Unindo algumas experiências vividas e observadas com as vezes em que assisti aos filmes do ogro verde, acabei tirando algumas conclusões que […]


Nesta semana em que um frei foi advertido por celebrar uma casamento com noivos vestidos ‘a la Shrek’, o desenho animado acabou caindo em um dos meus embates reflexivos em relação à fé. Unindo algumas experiências vividas e observadas com as vezes em que assisti aos filmes do ogro verde, acabei tirando algumas conclusões que decidi dividir.

Lembra daquela cena em que o Shrek, a Fiona e o Burro estão indo para “Tão tão distante” (Far far away)? É exatamente sobre ela que quero comentar. Façamos de conta que Far far away é, aqui, não a cidade encantada, mas a vontade de Deus – da qual constumamos estar “tão tão distantes”.

Nossa vida em relação à vontade de Deus é, guardadas as devidas ressalvas e proporções, idêntica à jornada de Shrek e companhia em direção a Far Far away. Estamos, quase sempre, afastados dela, e é preciso que nos disponhamos e nos movamos até lá – aqui, trilhando um caminho que durará todos os nossos dias.

Cada um de nós é como a carruagem do filme, e carregamos em nós um Shrek, uma Fiona e um Burro (nossos valores e temperamentos). O grande problema é que, ao longo da estrada, costumamos deixar que o Shrek que há em nós tome as rédeas, e em vez de descansarmos e apreciarmos a trilha, a paisagem e o que há em volta, fechamos a cara e reclamamos do caminho e da distância – e também do nosso lado Burro ansioso, perguntando “a gente já chegou?”.

Por mais que a insistência do Burro seja chata (rs), ele carrega consigo um elemento que é essencial para o equilíbrio da “turma” – o otimismo e a pitada de ingenuidade que muitas vezes passam longe de nós. O Burro é bem parecido conosco, logo nos primeiros dias dessa viagem em busca da vontade de Deus (da qual estamos tão tão distantes). É um retrato de nosso humor assim que decidimos pegar a estrada, ou de quando paramos e – com Deus – recarregamos a bateria.

De outro lado, não é legal deixar que o Burro seja, sozinho, o guia de nossa carruagem. Quase sempre a ansiedade por chegar, a energicidade, o otimismo e vislumbre excessivamente ingênuo do alvo nos fazem ignorar coisas importantes do caminho – como alguns obstáculos – e desrespeitar o espaço para outras atividades nossas e de outros.

Não sei se você já reparou, mas a Fiona costuma estar sempre no meio do Shrek e do Burro. É quem geralmente media a situação; apaziguando ambos os lados, defendendo um deles, ou distanciando-se de todos. É a ponderação do “eu”, lutando entre o desconfiado e resmungão e o otimista excessivamente ingênuo.

No final das contas, é a relação dos três que faz com que a trama continue, que se sustente e renda boas lições, aventuras e gargalhadas. Assim como acontece conosco. É o conflito entre o nosso ponderar, desconfiar e ansiar seguir adiante que nos ajuda a aprender e a crescer na direção de Deus. O grande desafio é a prender a lidar com esse tumulto.

Nosso lado Fiona precisa estar atento, mediando os nossos ânimos no dia-a-dia, e é preciso que esses ânimos dêem sinal de vida para que essa Fiona não se perca sozinha. Nosso lado Shrek precisa cobrir de cautela a ingenuidade do Burro, e este, por sua vez, precisa lembrar o Shrek de olhar o lado bom e seguir adiante, renovando o estoque de bom humor.

O que não podemos fazer durante o percurso é nos tornarmos Fionas perdidas, Burros falantes sem cautela e ogros fechados no desânimo, deixando que a carruagem pare e, assim, a vontade de Deus fique, para nós, sempre – e cada vez mais – far far away.